BRANDÃO, Carlos Rodrigues. O processo geral do saber: a educação popular como saber da comunidade In: --------. Educação popular. São Paulo: Brasiliense, 1997. p. 14-26.
Para conhecer como o saber terá emergido à vida, é preciso nos distanciar longe de memórias remotas.
Brandão diz que o primeiro homem possuía traços que o tornava diferente de outros seres vivos, até mesmo os mais evoluídos. Ele tinha sinais no corpo que transformariam o ato do saber simbólico.
O autor relata que nossos ancestrais “peludos” eram desprovidos de símbolos, palavras e de cultura e por isso sobreviveram a salvos durante milênios sobre as árvores.
A evolução da vida limitou entre nossos ancestrais a descendência a um filho de cada vez, com exceção dos gêmeos.
Entre o animal e o homem a vida coletiva se impõe e a pequena determinação biológica de suas relações entre sujeitos pensantes gera uma lenta passagem do conhecimento para o conhecimento simbólico.
Desprovidas de forças e armas do corpo para matar ou fugir e, inicialmente, desprovidos de um saber necessário que pudesse passar de um corpo a outros, os pequenos seres humanos atravessaram longos períodos da vida convivendo em companhia de iguais no interior de grupos cada vez mais estáveis e, ao longo do tempo cada vez mais complexo. Ao criar um tipo absolutamente novo de trocas onde entre um ser e outro não há apenas eles e a natureza, mas também objetos.
Segundo Brandão, ensinar-e-aprender tornam-se inevitável para que is grupos humanos sobrevivam agora e através do tempo, é necessário que se criem situações onde o trabalho e a convivência sejam também momentos de circulação do saber.
As sociedades tribais, assim como os homens do passado longínquo, fazem os seus ritos de passagem não celebrando apenas o fato de que meninos e meninas chegaram a uma dada idade. Celebravam também aqueles que eram reconhecidos como sabedores dos conhecimentos necessários para o ingresso na vida adulta.
Alguns poucos especialistas de artes e ofícios, como os da religião primitiva, em algumas tribos, todos sabiam tudo entres si e se ensinavam-e-aprendiam, seja na rotina do trabalho ou durante raros ritos, os homens falavam dos deuses para na verdade ensinarem a si próprios. Esta foi educação popular.
Através do plantio de grãos o homem pode fixar-se, separar-se de atividades continuas e de resultado imprevisto e pode multiplicar-se.
Para proteger a riqueza e conservar o poder, os senhores da cidade aos poucos criaram os Estado, as milícias, a ciência, a religião e a arte, que já não representavam mais a vida solitária da comunidade antecedente, mas a sua divisão.
Uma divisão do conhecimento necessário não acontece de uma vez, nem se deu do mesmo modo em todos os tipos de sociedades, desde um remoto momento da Pré-História até hoje.
Para Brandão, a produção de um saber popular se dá, pois, em direção oposta àquela que muitos imaginam ser a verdadeira. Não existiu primeiro um saber científico, tecnológico, artístico ou religioso, que levado a escravos, servos, camponeses e pequenos artesãos, tornou-se empobrecido, um “saber do povo”.
O autor conclui dizendo que, um saber da comunidade torna-se o saber das frações (classes, grupos, povos, tribos) subalternos da sociedade desigual. Em um primeiro longínquo sentido, as formas – imersas ou não em outras práticas sociais -, através das quais o saber das classes populares ou das comunidades sem classes e transferido entre outros grupos ou pessoas, são a sua educação popular.
Nenhum comentário:
Postar um comentário